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Psicologia, racismo e saúde mental

agosto 4, 2018adminArtigos

A psicologia, notadamente, a área clínica manteve certo distanciamento em relação às produções teóricas voltadas a discriminação racial e seus efeitos na saúde mental. Essa situação perdurou por algumas décadas. Porém, há alguns anos diversos profissionais têm produzido conhecimento teórico relativo ao tema.

A discriminação racial produz efeitos deletérios na saúde emocional do sujeito. Ao ser discriminado, ele se sente excluído da sociedade no qual está inserido. E conforme a situação se mantém, ele pode vir a desenvolver alguns esquemas e crenças de desvalor, o que por sua vez pode gerar condutas depreciativas em relação a si próprio. Essa engrenagem que opera de forma disfuncional, pode acarretar transtornos psiquiátricos, principalmente depressão e ansiedade.

No intuito de realizar uma análise mais profunda acerca desse tema, faz-se necessário compreender a discriminação racial e sua intersecção na saúde. O conceito de raça utilizado neste artigo, se refere ao agrupamento de traços biológicos herdados e que diferenciam grupos humanos (cor da pele, feições, etc…). Há uma discrepância no acesso a bens e serviços e outros recursos necessários ao desenvolvimento humanos, que é atravessado pela dimensão racial. A discriminação racial pode atuar como um fator que limita o acesso aos bens e serviços, mas para além disso acarreta efeitos na autoestima, pois o sujeito que pertence ao grupo, percebe a si mesmo como uma pessoa desvalorizada.

Imagem do Teste da Boneca realizado em 1946

Imagem do Teste da Boneca realizado em 1946

 

O teste da Boneca realizado por pesquisadores ilustra o quanto a falta de representatividade influencia na autoestima do sujeito. Os autores solicitaram que as crianças escolhessem a boneca que eles consideravam bonita. A maioria escolheu bonecas brancas em detrimento das negras. Mesmo as crianças negras. A estas, quando questionadas sobre a boneca mais semelhante, elas escolhiam a boneca negra, embora não considerassem a mais bonita.

Sobre a saúde mental, os estudos mostram que os negros registram maiores índices de depressão, autoestima, e maior vulnerabilidade ao estresse crônico. A variável raça, não pode ser diluída sobre outras variáveis socioeconômicas utilizadas para nortear o adoecimento mental, posto que mesmo quando estabilizadas as demais variáveis, a raça continua como modulador de saúde.

Ao longo dos atendimentos com os pacientes, e através de debates com outros colegas psicólogos, observa-se que há presente um discurso no senso comum de causalidade individual. Como essa engrenagem opera de modo sutil, o indivíduo inicia o processo terapêutico e acredita que isso ocorreu de modo aleatório. Ou que há uma distorção no pensamento do sujeito sobre as demonstrações de racismo, e que através apenas da motivação pessoal isso é passível de mudança. Porém, isso é reflexo da estrutura que diferencia as pessoas em função da cor da pele. Entretanto, não há determinismo em explicitar que a dimensão racial por si mesma é a origem do sofrimento psíquico. Mas devemos considerar que os diferentes tipos de discriminação que algumas pessoas experienciam, podem contribuir para o agravamento da saúde mental.

Mais da metade da população do Brasil se considera negra e/ou parda, então é importante discutir as relações raciais no âmbito da clínica, do consultório. Diversos estudos comprovam que o racismo contribui para maior propensão em desenvolver alcoolismo e depressão. O estresse em ter de lidar com a discriminação também afeta a saúde dos sujeitos. Logo, o objetivo deste artigo não é rotular, mas apontar para as peculiaridades da população negra. É importante compreender os efeitos no psiquismo e na subjetividade dos indivíduos decorrentes de práticas racistas na sociedade. O sujeito que adentra o consultório, ele está imerso em cultura. Não há um indivíduo universal, abstrato que não esteja em interação social. Negligenciar esse aspecto equivale a desvalorizar o sujeito.

Nesse sentido é mister discutir a subjetividade também a partir da dimensão racial na clínica, particularmente no consultório, a fim de que o indivíduo possa se conhecer e desenvolver estratégias saudáveis para lidar com isso, sem adoecer.

 

 

Referências

 

Faro, A., & Pereira, M.E. (2011) Raça, racismo e saúde: a desigualdade social da distribuição do estresse. Estudos de Psicologia, 16(3), 271-278.

 

Oliveira, R.M.S., & Nascimento, M.C. (2018) Racismo, saúde mental e território: desafios políticos e epistemológicos na clínica ampliada. Revista da ABPN, 10(24), 03-15.

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